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Racismo em promoção: Consumidores denunciam supermercado de Macaé

Publicado em 13/01/2021 Editoria: Cotidiano 1 comentário Comente! Imprimir


Carine Passos sofreu racismo há aproximadamente um ano e, desde então, não para de receber relatos de outras pessoas

Carine Passos sofreu racismo há aproximadamente um ano e, desde então, não para de receber relatos de outras pessoas

Começamos um ano novo, mas com um problema antigo: O racismo. Logo no primeiro mês do ano, diversos novos relatos de pessoas, que sofreram com a discriminação, enquanto simplesmente faziam compras em um supermercado em Macaé. Parece algo absurdo e até impossível de acontecer em pleno 2021, mas essa realidade atinge dezenas de cidadãos.

Nesta semana, um texto publicado por David Bittencourt, em suas redes sociais, trouxe mais uma vez à tona um problema relatado com frequência pelos clientes de um conceituado mercado macaense. David contou que se sentiu ameaçado pelos seguranças, enquanto fazia suas compras.

"Quem me conhece, sabe que não sou de polêmica ou de problematizar as coisas, mas na moral já não aguento mais ir ao Supermercado JPavani Macaé e ser seguido pelos seguranças. Aconteceu a primeira vez, eu relevei por não querer acreditar, na segunda estava com a minha esposa Thamires da Costa e nos sentimos incomodados, porém também passou. Mas acabei de chegar de lá agora revoltado. O segurança teve a cara de pau de nem disfarçar, me seguir e ficar me encarando. Como eu não devo nada, eu também encarei. Não satisfeito, ele ficou na frente do caixa em que eu estava passando e seguiu me encarando, sem necessidade alguma, já que eu estava pagando as minhas compras. Faltou pouco me seguir até o lado de fora... Uma atitude desrespeitosa e constrangedora!!! E todos os três que me seguiram eram brancos! Só um alerta para os amigos de cor que costumam comprar nesse supermercado, eu cheguei falando com a Thata que eu não tenho mais vontade de comprar lá, por mais que precise! Nem é o tipo de coisas que gosto de colocar na internet, mas precisava deixar esse relato aqui, tanto para o Supermercado tomar as devidas providências, quanto alerta aos amigos!!!", postou nas redes.

O texto gerou rapidamente dezenas de comentários de outras pessoas que sofreram o mesmo preconceito. David decidiu não só deixar o relato nas redes sociais, mas também vai levar o caso mais a frente.

"Eu já conversei com o advogado sobre o assunto e ele está me instruindo. Ele disse para eu entrar com danos morais, já que não é a primeira vez que passo por esse constrangimento dentro do mesmo mercado. Inclusive no mês passado, estávamos eu e minha esposa, e aconteceu novamente. Encontramos um casal de amigos e paramos para conversar. A situação estava tão explícita, que a nossa amiga nos perguntou se estava acontecendo realmente o que ela estava pensando", lembrou.

Além de David, nossa equipe identificou várias pessoas, que foram vítimas desse racismo dentro do supermercado. Foi o caso da cientista social, Carine Passos, que também utilizou as redes sociais para relatar o que sofreu, há um ano.

"O mesmo aconteceu comigo há quase um ano. Não era a primeira vez que eu me sentia sob os olhares atentos do segurança, mas naquele dia em questão a situação ficou em maior evidência. Na ocasião, procurei a gerência e relatei nas redes sociais o ocorrido. Para minha surpresa, recebi mais de 15 relatos de pessoas que tinham vivenciado o mesmo", declarou.

Carine decidiu não entrar na justiça com relação ao caso. "Meu advogado entrou em contato com o advogado deles e o assunto acabou morrendo. Confesso que fiquei um pouco acuada e não dei seguimento ao processo", contou Carine, que manteve seu relato nas redes sociais e diz que ainda hoje, depois de quase um ano do ocorrido, recebe relatos de pessoas que viveram algum problema parecido no mesmo estabelecimento.
Ainda antes da Carine, Silvio Tobias também foi uma vítima dessa ação preconceituosa do mercado, há mais de um ano. Na ocasião, ele e sua esposa, Gabrielly Ferreira, faziam compras no estabelecimento, quando se sentiram coagidos.

"Era para ser um dia normal, para fazermos compras. Passamos por todo os corredores até que chegou um momento que percebemos nitidamente que estávamos com um &39;segurança particular&39;. Ele estava andando colado na gente, sem nenhum motivo plausível. Foi uma pressão ridícula, só porque o Silvio estava com cabelo para o alto, uma mecha loira, chinelo e regata", lembrou a esposa, conhecida também por Tiahac.

Ela contou ainda que chegou a ir às suas redes sociais para falar sobre o caso e chegou a ser ameaçada pelo filho do dono do mercado. "Recebemos muitos apoios, mas achamos que não ia dar em nada, até que meses depois vimos o relato da Carine, que passou pelo mesmo problema. Hoje nós não compramos mais nada lá, porque é um absurdo tudo isso. Parece que preto não pode ter dinheiro. Isso é vergonhoso!", desabafou.

Luiz Felipe também foi umas das vítimas. Ele contou, que por pelo menos três vezes passou por uma situação inconveniente enquanto tentava fazer compras.

"Na primeira vez; eu estava voltando de um compromisso. Estava de sapato, jeans e camisa social. Não que isso fosse importante, mas o homem negro cresce sabendo que se estiver mal vestido vira mais suspeito ainda. Ao passar pela entrada, já percebi o segurança recebendo um contato no rádio e olhando pra mim. A partir daí, ele se manteve sempre à vista, no corredor principal parado nas "esquinas" dos corredores em que eu me encontrava. Estávamos eu, minha companheira e meu filho; que na época tinha 5 anos. Inclusive esse foi o motivo para eu não ter interpelado o segurança ou a gerência; para não ter que expor meu filho a essa situação; hoje apenas evito ir ao estabelecimento", contou Luiz.

A jovem Drielly lembrou que isso aconteceu não só em uma vez, mas mais de uma e que é uma prática comum em quase todos os supermercados.

"Uma vez, eu estava fazendo compras mensais com o meu namorado e um dos seguranças ficou nos "rodando", sabe? Eu falei com o gerente, que também é negro, e me relatou que a equipe de segurança é terceirizada.  Outra vez, estávamos em um corredor conversando com um amigo que encontramos e o segurança ficou passando ora em uma ponta, ora em outra do corredor observando. É muito triste passar por isso, fazendo uma tarefa simples e nem assim se tem sossego", lamentou.

É possível lutar pelos seus direitos!

Infelizmente, muitas pessoas acabam deixando o assunto para lá por diversos motivos, mas é necessário mudar essa realidade. Kátia Magalhães, que é historiadora e pesquisadora das questões étnico raciais destacou que há uma série de medidas, que não só podem como devem ser tomadas, para mudar essa situação que é histórica.

"Precisamos entender o racismo e de como ele foi se estruturando ao longo da história. O Brasil foi o último país a abolir escravidão e vários mecanismos foram criados, inclusive de forma legal, para a marginalização e a exclusão do povo negro. Praticar, induzir e incitar a discriminação é considerado preconceito, mesmo que não tenha esboçado palavras. O fato de perseguir, intimidar e constranger se caracteriza uma prática racista", lembrou a historiadora.

Segundo Kátia, Macaé tem em média 120 mil negros e negras, que são a herança do maior quilombo do Estado do Rio de Janeiro, o Karucango, e o papel desses negros é não se calar diante do preconceito.

"Existe uma dificuldade em nosso país em fazer valer a criminalização do racismo. Muitos preferem ‘deixar pra lá’. Até porque existe também uma banalização com frases do tipo ‘não é tanto assim’ ou é ‘mi mi mi’. Porém, quando um denuncia, acaba dando coragem para que os outros façam o mesmo, e, com isso, situações piores podem ser evitadas. Lembro sempre do caso do cidadão João Freitas, perseguido e morto no supermercado Carrefour. Será que foi a primeira vez que perseguiram alguém no supermercado? Se eles tivessem sido denunciados? Enfim...o racismo fere e mata!", frisou.

Katia afirmou que a orientação é: “a primeira atitude que deve ser tomada em casos como estes é procurar a delegacia mais próxima e fazer o boletim de ocorrência. Inclusive, existem delegacias especializadas em crimes racistas em algumas cidades. Caso não seja possível fazer o boletim por alguma razão, o cidadão deve procurar um Fórum, como também acionar organismos de defesa dos Direitos Humanos”, finalizou.

Nossa equipe entrou em contato com o supermercado JPavani, mas até o fechamento desta edição não conseguimos retorno sobre os casos.
 

› FONTE: RJ NEWS ONLINE (www.rjnewson.com.br)


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