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Água é mais valiosa que petróleo, diz especialista

Publicado em 22/03/2014 Editoria: Meio Ambiente sem comentários Comente! Imprimir


O Dia Mundial da Água é comemorado neste sábado, 22 de março, como uma tentativa da Organização das Nações Unidas (ONU) de conscientização sobre o uso e a conservação do líquido. Neste ano, o tema é Água e Energia e traz em todo o mundo debates sobre a produção energética de forma limpa e econômica.  Segundo a ONU, mais de 1 bilhão de pessoas não tem acesso à eletricidade e outras 768 milhões não possui acesso à água potável.

Em todo o planeta a água é preocupação, já que há forte aumento na demanda nos últimos anos acompanhado de aumento proporcional no consumo per capita. Soma-se a isso a poluição e degradação de mananciais e a crescente urbanização e está desenhado um cenário pouco animador no que diz respeito à preservação dos recursos hídricos.

De toda a água presente no planeta, só 3% está disponível como água doce. Destes 3%, três quartos está congelada nas calotas polares e 10% estão confinados nos aquíferos; portanto, à disposição em estado líquido resta apenas 15%.

E a tendência é de piora. Entre os anos 1900 e 2000, o consumo de água no planeta aumentou em dez vezes (de 500 km3/ano para aproximadamente 5.000 Km3/ano). E os usos múltiplos da água, como alimentação, energia, indústria, também aceleraram em todo planeta.

Para os próximos anos, dois fenômenos vão impactar o acesso à água: expectativa, até 2050, é de que haja 9 bilhões de pessoas no mundo, com 47% desta população vivendo em grandes cidades; além disso, e espera-se que grande parte dos países apresentem um aumento de renda per capita.

O que me deixa otimista é que sabemos para onde ir, temos bons exemplos de países que cuidaram de mananciais e conseguiram ter acesso à água em quantidade e qualidade

 

A urbanização é alvo de preocupações em se tratando dos recursos hídricos. Ela aumenta as demandas para grandes volumes de água e também os custos do tratamento, além das necessidades de mais energia para distribuição de água e a pressão sobre os mananciais. Apesar dos números nos levarem a um risco de colapso, o gerente de Fundos de Água da organização The Nature Conservancy (TNC), Fernando Veiga, é otimista em relação ao futuro dos recursos hídricos. Para ele, o grande desafio do século XXI é equilibrar a demanda e a conservação, como através de cuidados com as mananciais. Fernando é claro: “é um grande desafio, mas nós sabemos para onde temos de caminhar”.

No Dia Mundial da Água, o que é mais importante, no seu ponto de vista, a se fazer pela água no mundo? 

O grande problema é atender o aumento da demanda com a oferta de água. Acredito que a grande questão relacionada à água neste momento é que você tem para os próximos anos dois fenômenos que vão impactar o acesso à água: temos uma expectativa para 2050 de 9 bilhões de habitantes no mundo, com um aumento de renda per capita da população (o que é bom socialmente, mas um desafio ambiental). Alguns estudos veem um aumento de consumo de 64 bilhões de metros cúbicos, o que é um fator de expressão muito forte, significando uma série de problemas de atendimento desta demanda.

Para se ter ideia, em 2030, 47% da população estará vivendo em grandes cidades. Na América Latina, já sofremos um grande processo de urbanização. Há uma expectativa de que teremos em breve 70% da população vivendo na área urbana. Aliás, a América Latina já é o continente mais urbanizado do planeta. Em Quito, no Equador, nosso exemplo mais próximo, eles possuem um ótimo modelo de iniciativa, de parceria local entre as empresas de água e os fundos de água

Quando a gente pensa em água, pensamos em coisas muito básicas. Mas a água tem uma relação muito grande com alimentos (agricultura consome 70% dos recursos) e a produção de energia, coisas que são fundamentais. Hoje, encontramos a degradação de quase todos os mananciais de abastecimentos principais no mundo. Isso significa a devastação da cobertura vegetal original, o uso mal aproveitado de pastagens e processos de poluição.

Qual o cenário em relação à demanda X população na América Latina?
A água não é distribuída igualmente, você vê pelo exemplo da Amazônia, que possui enorme recurso, mas baixa densidade populacional. Já em São Paulo, temos uma concentração de demanda e percebemos problemas sérios, como este sofrido atualmente na Cantareira. E isto não atinge somente a capital, mas toda a área próxima das cabeceiras dos rios fornecedores. Em Piracicaba, Campinas, temos valores hídricos iguais a de países semiáridos. Outro exemplo interessante neste sentido, é Lima, no Peru, 70% da população do país vivem onde estão apenas 1,8% da água.

Você é otimista em relação ao futuro?

Sim, porque estamos trabalhando no sentido da conscientização em todo o mundo. Há um engajamento. No setor privado, grande parte das empresas vem percebendo a importância deste tema, investindo na manutenção e proteção de recursos hídricos e suas mananciais. No setor público, vemos que vários países com agências de água ativas, cada vez mais preocupadas. É claro que o desafio é muito grande e nós vamos ter de trabalhar de forma conjunta. O que me deixa otimista é que sabemos para onde ir, temos bons exemplos de países que cuidaram de mananciais e conseguiram ter acesso à água em quantidade e qualidade.

Quais exemplos são estes?

Temos alguns bons exemplos: a Costa Rica dá incentivos econômicos ao setor agropecuário para a conservação e cuidados com mananciais, da natureza. Eles conseguiram trabalhar de forma conjunta na restauração desta natureza e recuperar importantes fontes de água. Em Quito, no Equador, nosso exemplo mais próximo, eles possuem um ótimo modelo de iniciativa, de parceria local entre as empresas de água e os fundos de água, possibilitando a qualidade e a oferta de água, e é algo que queremos replicar no Brasil: reunir um grupo de atores usuários de água, recolhendo recursos públicos e privados com parcerias com a população local, os chamados “produtores locais”.

A passagem deste valor econômico da água é mais forte do século 20 para 21

Outro exemplo é a cidade de Nova York, nos EUA. Lá encontramos uma das águas de melhor qualidade no país. Eles retiram o mineral em lugares distantes, e investiram pesadamente na década de 1990, com associações de produtores rurais. A água vem direto dos canais, não passam por tratamento de agua. É interessante do ponto de vista ambiental, social, econômico.

A água é o novo petróleo? O que você acha desta frase?
Com certeza! Aliás, a água é muito mais que o petróleo. Precisamos de água para tudo. O petróleo foi uma fonte de energia, é necessário, mas a água é essencial. A percepção a partir dessa frase tem a ver, claro, com a escassez. Nos casos na América Latina, achávamos que a água seria um bem inesgotável, que poderia se utilizar sem pensar. Mas, ao contrário, é um bem escasso, você tem que dar valor, você tem que tratar bem, você tem que punir quando tratam mal, acho que a água terá um valor econômico cada vez mais forte.

A passagem deste valor econômico da água é mais forte do século 20 para 21. Porém, olhando para nós, acho que o Brasil está numa situação muito melhor que boa parte dos países... Ainda temos tempo para acertar. É um desafio, mas temos bons instrumentos.

› FONTE: Macaé News (www.macaenews.com.br)


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